Antes do laudo IV
Meu filho Eduardo, iniciou no Instituto IRIS quanto tinha 7 anos.
Antes de iniciar em instituto estudou na pré escola Betel Brasileiro, na zona norte de São Paulo. Embora tenha permanecido um ano completo escolar e tenha concluído o prézinho, não realizou nenhuma das tarefas, quer colagem, pintura, recorte, copiar letras, não aprendeu uma musiquinha (as professora de pré escola costumam cantar "o sapo não lava o pé", "um, dois, três, índiozinhos..."entre outras).
No entanto, a professora notou que ele sabia ler, embora não falasse as silabas, notou que apontava corretamente para silabas quando perguntado, mas tinha um desenvolvimento muito abaixo do esperado para sua idade, não desenvolveu linguagem, nem palavras simples como "oi", "bom dia", ou falar seu próprio nome e não falava "mãe" ou "pai", comia papel, mordia lápis, não ficava sentado em sala de aula, não brincava com as crianças de nada nem no parquinho.
Única atividade que houve um mínimo de interação foi uma apresentação do dia das crianças onde professoras vestiram-se da turma da Mônica, aí ele ficou encantando, pulava, balaçava as mãos e não saiu de perto da turminha e deu a mão para Mônica e Cascão, tirou foto, ficou lindo e emocionou a todas professoras.
No primeiro dia de aula no instituto, eu o arrumei todo bonitinho passei perfume e creme, sempre gostou de passar creme e por gel no cabelo, a escola não tinha uniforme, não fornecia lanches, o material, por ser específico, era comprado pela escola.
A escola pediu para levar algo que gostava de comer e algum brinquedinho. Levei a mamadeira, que até 7 anos era o que comia (mingau de cremogema tradicional) um pouco de suco de cenoura, não gostava de refrigerante, chás, frutas, carne, sopa, doces, chiclete, bala, só a mamadeira.
Gostava de um cobertozinho de quando era neném, pra onde ía levava e ficava segurando e pulando pra lá e pra cá. Tinha cobrado dois cobertores iguais, pois quando lava um, entregava o outro para ele. Aliás, ele tinha roupas iguais porque desde pequenininho tinha mania de roupas, sempre gostou de cores com vermelho, cores viva. Eu tinha uma blusa pink e uma saia preta com babado, ele gostava muito desta roupa. Quando íamos sair ou queria sair, pegava minha roupa e ficava andando com ela na casa para eu por a roupa que ele queria. Demorou pra ele perder essas manias, na verdade, ainda tem, hoje veste camiseta do time São Paulo ou do Brasil, tem várias camisetas iguais.
Chupava chupeta e o desfralde, só conseguimos xixi.
Quando cheguei a diretora viu e já falou que seria necessário mudanças e teria de tirar chupeta, mamadeira e cobertor. Deu uma lista de orientações e modificações de coisas para serem feitas em casa. Pediu para comparecer à escola o pai e minha irmã e minha mãe, que eram os familiares que ele tinha contato e nos deu orientação em como agir, em que mudar.
Confesso que foi um desafio e precisou de mudança de atitude de toda família e apoio dos profissionais, da psicóloga, fonoaudióloga (embora precisasse de mais, era o que o dinheiro dava pra pagar).
Mesmo sendo localizada na Zona norte de São Paulo, eram duas conduções para levar Eduardo à escola e como não tinha laudo fechado, não tinha acesso ao benefício do bilhete PCD. Na época, estudante pagava meia, porém ele tinha apenas 7 anos e estava em um instituto e não na rede escolar regular, assim também não tinha direito pagar meia. O jeito era ir andando uma parte do trajeto para minimizar o custo e as vezes, andava o caminho inteiro. Deixáva-o na escola as 08:00 e voltava andando para casa, pois ia adiantando o almoço, às 11:00 voltava andando para buscá-lo, pois saía às 12:00.
Talvez pense...meu Deus! Não faria isso!
Nunca foi pesado levá-lo!
Em 6 meses que estudava neste instituto já era possível ver resultados!
Meu filho estava mais calmo, menos agressivo e estava sentando para fazer lição.
A maior dificuldade foi a agitação e embora a caminhada fosse grande, colaborou para baixar a agitação.
Permaneceu neste instituto dos 07 aos 09 anos, aprendeu ler e falava um pouco em tom baixo, também não repetia o que dizia. Aprendeu recortar e colar e gostava muito de fazer isso. Gostava de colar e recortar aparelhos eletronicos (TV, DVD, Aparelho de som) amava fita cassete e gostava de gravar.
Na época, a Casas Bahia tinha em frente à loja um banquinha com folhetinhos de oferta. Toda vez que íamos à terapia ele queria pegar um folhetinho. Certo dia, os vendedores não deixaram e ele ficou bem irritado e entrei na loja e pedi para falar com o gerente e expliquei que ele usava na terapia. O gerente não entendeu e disse que não poderia pegar. Fiquei chateada. Na outra semana quando fomos na terapia passei do outro lado da rua. Os vendedores me viram e chamaram e fui lá. O gerente tinha separado vários folhetinhas e perguntou se era suficiente e entregue à terapeuta quando descobri que havia outras crianças que também gostavam desses filhetinhos e era muito comum as mães pegarem nas lojas para recortarem nas terapias e em casa.
Eduardo aprendeu comer churros! Foi muito legal vê-lo comer algo que as crianças amam. O problema veio depois, não podeia ver um carro de churros que puxava minha mão para comprar e claro, nem sempre tinha dinheiro e não poderia comer o tanto que queria, aí começava chilicar na rua, fazia birra, se batia, me batia e levou um tempo para que ele entendesse e aceitasse o "não" a frustração. Aliás, até hoje tem dificuldade...
Aos poucos fomos tirando a mamadeira, o cobertor e a chupeta, deu muito trabaho, muito chilique, muita birra a ponto da minha mãe fazer mamadeira escondido e dar para ele, mas foi preciso insistir e brigar até com a avó fazendo-a entender que seria necessário, emagreceu.
A orientação da psicóloga foi tirar de uma vez, segundo ela se fosse tirando aos poucos não tiraria e fiz assim. O primeiro ano foi bem sofrido, mas vencemos e vieram as alegrias, ampliou sua alimentação, aprendeu brincar com dominó, aprendeu as cores, gostava que lesse para a ele o livro da Bela e a Fera sempre em que aguardávamos ser atendido na terapia (criou uma nova rotina), andava de mão dada e aprendeu andar de metrô que ama até hoje.
Melhorou a alimentação, primeiro era só mingau na mamadeira e depois apenas leite com nescau, bolo de chocolate, neston, arroz com chiquenito e frango cozido e amava churros e suco de cenoura.
O cobertou foi trocado por um ursinho em formato de Mickey Mouse bem grandão, o maio que meu ticket conseguiu comprar no camelô, andava com ele pra todo lado.
Passou assistir a turma da Mônica e amava a todos então dei um boneco do Cascão, amou!
Aprendeu gostar de papai Noel e pela primeira vez vi ele empolgado no Natal, fomos ao shopping D, fomos ao shopping Center Norte e até tirou uma foto com papai Noel. Na época não falavam de fila preferêncial, ele ficou um tempo na fila, mas logo começou chilicar, algumas pessoas reclamaram, outras sugeriram que pedisse para passá-lo na frente (estava bem demorado mesmo e bem cheio. Fomos pedir para passá-lo na frente e questionário é deficiente? Travei na hora, pela primeira vez estaria saindo da minha boca que meu filho "é deficiente". Na hora parei não conseguir dizer nada e peguei-o no colo e saí quando um pai com um filho com os mesmos chiliques do meu filho brigou com comigo e falou pra aceitar passá-lo na frente sim e me apresentou para sua esposa que me deu um abraço e disse que não é fácil, mas precisava aceitar e ser forte.
Peguei meu filho e fui com a mãe e seu filho tirar foto que ficaram lindas, tenho-as até hoje e sai dali aprendendo com ela não me envergonhar e nem me encolher porque meu filho tem problemas comportamentais, mas erguer minha cabeça e exigir seus direitos.
Devido demissão da empresa em que trabalhava não consegui efetuar o pagamento do instituto, mesmo com bolsa de 50%, pois a outra metada era paga pela empresa em que o pai trabalhava e o pai também foi demitido não muito depois.
Foi uma tristeza muito grande o dia em que ouvi da direção que não poderiam mais aceitar meu filho, voltei chorando pra casa.
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