Quem cuida de quem cuida? Sou sua maior pedagoga.

 Em 1997 fiquei novamente gestante, era uma menina, seria um parto para julho ou início de agosto. De início não fiquei nadica feliz, afinal, já tinha um casal, sendo que Du a cada dia era mais comprometido, mais agitado e mais dependente, usava fralda, mamadeira e dormia cerca de 5 horas na noite, mas ainda acordava, durante o dia não dormia nem um minuto.

Foi uma gravidez complicada de alto risco, sempre com dores e com o pai a cada dia que passava mais ausente aos problemas de casa,

Completei 7 meses e fui à consulta, o médico disse que tudo estava bem, porém no caminho de volta para minha casa já comecei sentir dores. Era quinta feira dia 07 de maio, na igreja havia culto de batalha espiritual e desejava muito ir e pedir oração e fui. O pai não quis ficar com Du ou Pri, sua irmã e levei Pri porque dava menos trabalho, mas não andava e a volta para casa tinha uma ladeirão e sabia que precisaria carregá-la.

Cheguei da igreja já sentindo dores e foram ficanco cada vez mais fortes, até que precisei ir ao hospital. Estava apenas com 7 meses de gestação, completados naquela semana. 

Pensei, vou ao hospital e ficarei internada, tomarei medicamentos e depois mandarão para casa, talvez seja isso.

Ao chegar no hospital Voluntários na zona norte de São Paulo, já na sala do médico iniciou uma hemorragia. Pensei, que bom que estou no hospital, irão estancar, farei repouso e depois terei alta.

O convênio negava realizar a liberação do atendimento, mas enquanto a administração hospitalar brigava com o  financeiro do convênio, a hemorragia aumentava juntamente com a dor e pior, sem atendimento, nem para estancar a hemorragia ou cessar aquela dor que só aumentava.

Comecei ficar nervosa, os minutos se passavam, e o sangue passou jorrar a cada contração, porém nem médicos ou enfermeiros no quarto onde estava.

Depois muito aguardar, fui levada à sala de cirurgia, o que parecia um alívio apenas foi início de mais negligência médica. Apenas  me tiraram da visão dos familiares, porém permaneci sem atendimento, não iniciaram a operação, aguardei na mesa com fortes dores, braços amarrados, sem nenhuma medicação por cerca de  3 horas.

 Dava pra saber o tempo porque há relógio na sala de cirurgia.

As 03 fa manhã iniciou a cirurgia, eu já cansada, não conseguia sentar para receber a ingeção da anestesia e ainda ouvia comentário grosseiro do anestesista que decidiu pela anestesia geral, por insistência médica.

A cirurgia teve fim às 08:00 da manhã.

Ao acorda, mal conseguia ver, nada diziam sobre o bebê, questionaram se queria ver minha mãe, meu ex marido e mal conseguia falar, mas pensava que era efeito da anestesia.

Levada à UTI, permaneci ali por alguns dias onde recebi a notícia de que minha bebê havia falecido (não conseguia acreditar, para mim, ao sair dali, encontraria ela no berçario ou oraria e Deus faria milagre e a traria de volta). Não vi minha filha, não pude ir em seu velório ou enterro.

Depois veio outra notícia, havia sofrido descolamento prematuro da plascenta e pedaços entraram na corrente sanguínea entupindo o coração e veios cerebrais, devido a isto tive AVC e infarto. Não sentia minhas pernas, lado esquerdo todo paralisado, rosto retorcido para esquerda, com sonda diziam para não falar.

Sempre cri que Deus faria um milagre e estava comigo, saí da UTI, fui para o quarto e aos poucos me recuperando, tive alta.

Em casa tive o choque da realidade, da gravidade, não conseguia desempenhar tarefas simples de casa, pegar meus filhos no colo, tomar banho sozinha, escovar dentes ou pentear cabelo.

Crer em Deus foi a força que me fez caminhar, prosseguir e vencer esses dias maus cuja sequelas até hoje trago em meu corpo, minha mente, minha alma e mudou minha história.

Tive de aprender reaprender, já não era a pessoa ágil de antes, meus movimentos, pensamentos  eram muito lentos, minha fala não refletia o que pensava, as vezes, mal conseguiam entender, precisei aprender falar de vagar e não cansar de repetir, pois não compreendiam. Não conseguia ler, não conseguia escrever, barulho era terrível, muita dor de cabeça que durou anos a fio. O coração que nunca lembrei que tinha batia com tanta força que parecia que pularia pela boca (literalmente).

Neste momento, ter apoio da família (minha mãe e minha irmã) foi o milagre que precisava viver para continuar caminhando, só Deus para capacitar e recompensá-las pela dedicação a mim dispensada e os cuidados com meus dois filho. Se me recuperei, agradeço a minha mãe que me ajudou ter fé a cada momento e jamais deixou eu murmurar ou me diminuir e a minha irmã que nunca reclamou por cuidar de 4 criança, pois tinha dois filhos de pequena idade, nesta época.

Com os anos fui recuperando os movimentos e o rosto retornando, mas como era nunca mais fui.

Precisei me aceitar, aceitar meu novo eu com minhas limitações cognitivas, físicas, sensoriais, aceitar meu novo corpo, minha mente, precisei reaprender tudo, desde lavar uma louça, dobrar roupas, varrer casa à escovar os dentes.

A leitura foi o que mais senti, pois sempre gostei muito de ler e não conseguia.

Um dia estava andando com minha mãe de ônubus e vi uma placa, mas as letras não faziam sentido para mim, mas naquele dia eu comecei a ler algumas silabas e perguntei pra minha mãe o que era aquela placa que dizia pa da e me respondeu padaria, desceu do ônibus e perguntou se queria algo, não queria nada, mas me deu um sonho, não lembrada o que era e amei. 

Não conseguia lembrar nomes de objetos, nomes de pessoas, trocava as palavras (as vezes ainda troco), levou anos para voltar a ler a bíblia, mas aprendi ter uma escuta ativa a aprender pela audição.

Passei ouvir cultos pela rádio e percebi que assim conseguia aprender a bíblia, pois sempre gostei muito de ler  a bíblia.

Se você chegou até aqui, talvez pense: tadinha! ou Que zicada! ou Deve ser castigo, só pode!

Para mim, foi o milagre que meu filho precisava.

Como te contei anteriormente, meu filho teve anóxia e posteriormente foi dignosticado com autismo e deficiencia intelectual. Ele tinha inúmeras dificuldade, desde linguagem, babava, sono, alimentação, aprendizado.

Muita coisa para ele aprender, muita paciencia foi preciso desenvolver para ensinar ensinar, muita metologia, e muita empatia, foi apenas replicar o que para mim dava certo ou não e fez diferença em seu tratamento e desenvolvimento.

Se tudo isso serviu para ajudar meu filho desenvolver-se melhor, fico grata a Deus, pois além de ter-me recuperado ainda pude ser uma pessoa melhor, mais sensível, mais humana e era exatamente essa sensibilidade que meu filho precisava, num momento em que não haviam profissionais especializados, escolas capacitadas e nem se falava em ABA, foi um milagre consegui desenvolvê-lo e ainda sou sua maior pedagoga.

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