Antes do laudo V
Eduardo estava com 9 anos, o laudo que tínhamos era de atraso no desenvolvimento global + hiperatividade emitido pelo neuro, não tomava nenhuma medicação.
O neuro e a psicopedagoga orientaram que fizesse alguma atividade com ele que o cansasse. Não tinha nada em mente, sinceramente, só as brincadeiras de criança mesmo, pega-pega, mas não brincava, não entendia, então pegava em sua mão e saia puxando ele até tocar em sua irmã e voltava correndo com ela correndo atrás - correr era com ele, amava; duro ou mole, segurava suas mãos e o abaixava nas brincadeiras vivo ou morto; e roda, minha filha ajudava segurando a outra mão, com o tempo aprendeu o miau e ria.
Dos 7 aos 9 anos estudou no IRIS - instituto localizado aqui na zona norte de São Paulo. Íamos a pé metade do trajeto, era a forma que usava para baixa a hiperatividade e com o tempo foi dando resultado. Começou sentar e ficar mais tempo nas atividades, aprendeu segurar lápis, cortar e colar e começou ser alfabetizado.
Com o término de suas atividades no instituto, eu fiquei sem chão. Não tínhasmos laudo fechado, não trabalhava, o Estado estava cortando convênios com outros institutos e mantia apenas que possuía laudos como síndrome de donw. Na diretoria de ensino Norte 2, falaram que como ele estava aprendendo ler e já sentava não encaminhariam para instituto, apenas se não conseguisse acompanhar a rede regular.
Estava com medo de inseri-lo no Estado assim, voltei para o mercado de trabalho e conciliei escola particular pela manhã e trabalho da tarde para noite, desta forma pagava.
A escola era pré escola, porém pertencia a uma das professoras do instituto IRIS, chama-se JS. Lá deu prosseguimento ao seu aprendizado com método específico.
Eduardo estudo dos 9 aos 10. Ele cursou Jardim II e Pré, pois quando tinha idade não conseguia permanecer em sala e ser alfabetizado e embora já pré adolescente, sua mente não acompanhava sua idade e precisava deste momento para desenvolver competências que não conseguia na época adequada. Foi maravilhosa sua interação. Não houve nenhum episódio de agressão, por sua parte à outras crianças, não comeu papel, como ocorreu quando o matriculei no Betel Brasileiro, passou desenvolver atividades, o que não ocorria; aprendeu ler e escrever (claro, dentro do esperado para uma criança no maternal e pré).
O preconceito é muito grande, houve denuncia da escola, por parte de pais à Diretoria Norte2 e fui obrigada tirar meu filho da escola e matriculá-lo na rede regular. A Diretoria queria inseri-lo na 6ª série, pois já com 10 anos. Para mim, isso seria uma violência com meu filho.
Na escola pré primária e a psicóloga, fizeram um relatório descrevendo seu aprendizado, desenvolvimento e sugeriram insersão na primeira série.
Com este relatório compareci à Secretaria da Educação, localizada na Praça da República, lá expliquei a situação, pedi instituto, porém obrigaram matricular na rede regular e participar da "inclusão", sem nenhuma avaliação do meu para verificar se era adequado ou não; nem olharam para meu filho ou as lições que fazia. seu histórico, suas dificuldades de interação e permanencia numa única atividade. sua dificuldade de comunicação e alimentação, nada, apenas ameaçou denunciar ao conselho tutelar se não levasse e perda de guarda.
Queriam encaminhá-lo para escola Eunice Terezinha Frágoa, esta escola não tem classe de apoio, disse que levaria pela manhã meu filho em outra escola para a tal classe de apoio e a tarde levaria para o Eunice.
Não aceitei isso, o Estado tem Escola com classe de apoio - porque não matricular nestas escolas?
Não queriam, até aqui vi distinção entre morar em um bairro pobre, ser negra, baixa renda e mães de bairro melhores que utilizam o público.
Falei que não levaria, que não faria essa via cruci com ele.
Saí dali com um pedaço de papel, chorando, indicando matrícula na Escola Cassio da Costa Vidigal, para matrícula na primeira séria (única parte de tudo que ouviram).
Cheguei na escola, do próprio portão de entrada negaram a matrícula para meu filho para primeira séria, um tal de Moisés; disse que matricularia sim, mas para a sexta séria, simples assim, o pedaço de papel não passou de pedaço de papel. Não matriculei e fui embora.
No outro dia voltei na Secretaria de ensino, encaminharam para Luiza de Godoy, não matricularam; Voltei, encaminharam para escola Julio Pestana, não matricularam; ao retornar mandaram comparecer na Diretoria Norte2 (simplesmente queria se livrar e demonstrava irritação com minhas idas e vindas); na Diretoria de ensino o tratamento permaneceu o mesmo e ainda zombaram de minha ida à Secretaria da Educação, por ineficaz e encaminharam para escola Rafael de Moraes Lima, onde estudaria na primeira séria e com classe de apoio. Nesta escola foi matriculado.
A escola Rafael era longe da minha casa, precisava pegar uma condução, porém o bilhete estudante só habilita o aluno e tinha de pagar 1/2 passagem para ele e uma inteira para mim, pois atraso no desenvolvimento não é causa de recebimento do bilhete PCD, embora ainda tivesse de acompanhá-lo em aulas, em tratamento, em consultas e exames.
Já não sei contar quantas vezes precisei pedir aos motoristas para descer pela frente com meu filho, porque sem dinheiro para comparecer à escola, exames, consultas e terapias. Alguns negavam e xingavam, mandavam trabalhar, diziam: todo dia! Brincadeira! Já sabia até qual a linha era melhor para pedir a "carona". Quando precisava pegar o 179X, pois único que ía para região do Bom Retiro, ondemeu filho fazia fonoaudiologia, era um deus nos acuda, porque não deixavam descer, e ficava no ponto esperando um motorista com boa vontade, já saía mais cedo, meu filho xilicava muito, mas fazer o quê? Até hoje, 2024, não mudou muita coisa sobre o transporte, o bilhete cancela se passar sem ele, sou obrigada permanecer 4 horas na escola aguardando sua saída e quando vence, não nos deixam pegar transporte até receber o novo. (Ainda vivemos mendingando transporte. A vida não é só levar filho na escola, terapia, consultas e exames, preciso ir ao mercado, preciso ir à igreja, preciso eu passar em consultas e exames. A solidariedade da sociedade é melhor que a ação dos políticos que ainda nos deixam como resto, fora de suas pautas governamentais).
Eduardo estudou 1 ano, neste 1 ano ele sofreu agressões, xingamentos, roubaram lanchinho que mandava, pois não comia a comida da escola, foi chutado, o mínimo que esperava da direção era segurança; pais de aluno reclamavam do meu filho já as minhas reclamações de agressões, roubos, xingamentos não tinham efeitos e até a direção zombava. Eu vi a escola deixar uma mãe entrar e gritar com meu filho na sala quando eu saía da diretoria. Peguei-o e não quis mais levar. O abuso era tão grande a ponto de darem presença sem ele comparecer, justificavam por me ajudar para não perder a vaga. Não consegui nem registrar boletim de ocorrência na 73º, quem já foi nesta delegacia sabe como é, porém, ao menos recebi orientação do delegado em como proceder para conseguir tirar meu filho desse sofrimento.
Neste um ano, meu filho retrocedeu o comportamento, passou ficar muito agitado, agressivo, me bater, arranhar seu braço até abrir feridas, morder-se, começou ter diarréia frequente no momento de ir à escola.
Passei ficar na porta da escola todo período de aula, do meio do ano pra frente leva-o apenas para sala de apoio pela manhã e já não levava para aulas à tarde. Percebi uma pequena melhora no comportamento e em tê-lo afastado das crianças agressora.
Em agosto, consegui chegar ao CPSi encaminhada pela neurologia do hospital do Mandaqui, pois a neurologista (um anjo que Deus colocou em nossas vidas), ao ver meu filho com os braços machucados disse que não era caso de neurologista, mas psiquiatria e pela primeira vez, em 12 anos, foi direcionado para psiquiatria. Suspendeu os remédios de epilepsia que tomava (fez desmame) e solicitou que a psiquiatra o laudasse em 30 dias e encaminhasse o relatório para ela com dignóstico fechado.
Dra. Jussinalva, cpsi Santana, prestes a aposentar-se nos acolheu, pela primeira vez entendi o porque o comportamento do meu filho ser daquele forma, se colocou a disposição da minha família se quissessem entender e disse seu filho é Autista, você sabe o que é? Não sabia e nas primeiras explicações não entendi nada, mas fiquei aliviada porque disse que o tratamento dele não poderia ser o recebido pela escola regular, que minhas observações estavam certas, não era uma mãe cruel, possessiva, limitadora de seu desenvolvimento e que estas pessoas sim, quem deveriam ser denunciadas ao conselho tutelar. Precisava ter ouvido tudo aquilo...
Com o relatório da doutora jussinalva e laudo retornei ao Mandaqui onde foi dada alta. A neurologista disse que ela não poderia dar o laudo, pois neurologicamente meu filho não tem nada e o comportamento precisa ser tratado com psiquiatra para baixa ansiedade, que também concordava com o laudo e com as observação da psicóloga que o tratou desde os 6 anos de idade.
Este laudo abriu portas...
A doutora aconselhou não levá-lo nas aulas, apenas na classe de apoio e deu um laudo sobre isto que entreguei na direção.
As terapias tinham fila de espera que eram quase eternas, pais estressados brigavam na recepção do Capsi e quando iniciou a terapia pelo Estado, aos 12 anos, ainda era ineficaz, dois dias, 40 minutos, em grupo. Levava mais tempo para fazê-lo entrar na sala do que permanecia em terapia ocupacional e já não pintava, colava e recortava.
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